A noite de 22 de fevereiro de
2013 ficará na memória dos moradores de Cubatão, município a 56 km de São
Paulo, afetados pelas fortes chuvas que atingiram toda a Baixada Santista e
causaram grandes danos à cidade, que fica bem ao pé da Serra do Mar.
Quinze mil famílias foram
afetadas e perderam tudo o que tinham. Os moradores diziam que não era possível
acreditar que aquilo tudo estava acontecendo. Os cubatenses viam suas casas e
pertences todos destruídos, segundo eles foi uma cena desoladora.
“Está difícil à situação,
não temos nada, não sobrou nada, nem onde dormir temos, estamos dormindo no
chão, eu e meus filhos, perdi todas as minhas coisas, não restou mais nada”,
contou a balconista Dalvina de Lima, uma semana após a enchente.
“Minha casa, a água levou
embora, tenho dois filhos e fora isso não tenho mais nada”, afirmou o mecânico
Leandro Alves. “A situação que a gente está vivendo é complicada”, conta a dona
de casa Elis Regina Simões. “Qualquer chuva que caia por aqui deixa a gente
traumatizada”, explica.
Foi a pior enchente
registrada nos últimos vinte e cinco anos, que causou tragédia e caos em toda a
cidade. Foram treze pontos de deslizamentos de terra, além de alagamentos em
toda a área urbana, atingindo os bairros de Cota 95, Cota 200, Morro do Índio.
Os bairros mais afetados foram Pilões e Água Fria, próximos ao rio Pilões que subiu
seis metros durante as chuvas.
As enchentes são um
problema histórico de Cubatão. A inundação de 1988 também atingiu toda a
cidade, causando um grande estrago principalmente no bairro de Cota 95 deixando
dez pessoas mortas.
O ginásio de esportes da
cidade, conhecido como Castelão, foi um dos locais que serviu de abrigo às
vítimas, além da Igreja dos Mórmons, escolas e entidades.
Moradores de toda a Baixada
Santista se solidarizaram e foram ajudar as vítimas com doações, montagens de
kits com roupas, alimentos, água, produtos de higiene e limpeza que eram
distribuídos às famílias desabrigadas.
A Cruz Vermelha foi
responsável por receber as doações e kits de tudo o que era doado e em seguida
distribuí-los aos necessitados. De acordo com o representante da Cruz Vermelha,
Bento Ferreira, houve uma triagem em todo o processo.
“Cada doação que chegou foi fiscalizada, e assim que apareceu a demanda, foi passada para a população
atingida. As pessoas que estão recebendo as doações foram cadastradas pelo
Serviço Social da cidade. Puderam ter falhas inicialmente na distribuição por alguma
irregularidade nos cadastros, mas que foram resolvidas em seguida”, explica.
Segundo o coordenador da
Defesa Civil de Cubatão, José Antônio dos Santos, inicialmente as ações de
socorro foram prejudicadas, devido à dificuldade em chegar aos locais mais
atingidos, já que as ruas e a rodovia estavam inundadas.
A média de precipitação em
fevereiro é de 150,9 mm, em vinte e quatro horas, caíram 274,2 mm, e em duas
horas 174,2 mm, mais do que o limite mensal.
“A água chegou a uma altura
de oitenta metros, por isso pedimos apoio ao Corpo de Bombeiros no resgate aos
moradores, através do helicóptero Águia que retirou as pessoas de Pilões, Água
Fria e Cota 95, para que não houvesse vítimas graves. Foi um trabalho em equipe
primordial”.
A Defesa Civil de Cubatão
realiza um trabalho de prevenção no período de chuvas (dezembro a abril) e
destaca que mesmo com a gravidade dos acontecimentos, não houve nenhuma morte,
garantindo bons resultados.
Equipes da Defesa Civil de
Brasília e do Estado vieram para contribuir com a equipe local. “Não tínhamos
como prever a quantidade de chuva que iria cair, por isso que colocamos Cubatão
em estado de alerta”, conta a coordenadora regional da Defesa Civil, Regina
Elza.
Cubatão tem uma população
de 118.720 pessoas, 54% foram afetados pelas enchentes. No total, 65 mil
moradores, foram atingidos ficando 473 desabrigados, 2777 desalojados.
Pesquisadores do Instituto
de Pesquisas Tecnológicas percorrem toda a área atingida, fizeram um relatório
de vistoria técnica que monitora a cidade. Este relatório foi entregue a
Prefeitura e a Defesa Civil do município para que Cubatão coloque em prática a
ações de prevenção e combate a novas enchentes.
Foram feitos dois relatórios,
o Formulário de Informação de Desastres (FID) que fez um levantamento de
moradias e bens públicos afetados, e a Declaração Municipal de Atendimento de
Emergência com informações de campo, para pedir verbas ao Ministério da
Integração Nacional.
O ministro da Integração
Nacional, Fernando Bezerra, foi a Cubatão na época e liberou uma verba de R$1
milhão. “Cubatão viveu algo extraordinário,
mais de 200 mm de chuva em 24 h sendo que a média mensal é de 150 mm. Estamos
avaliando todas as informações recebidas, todos os prejuízos causados em
infraestrutura para que os governos Federal, Estadual e Municipal consigam
reconstruir o município", esclarece.
De acordo com José Antônio dos Santos,
o dinheiro recebido pelo Governo Federal veio através de um cartão de pagamento
e está sendo utilizado da seguinte forma: atendimento à população (alimentação
e itens de saúde e higiene), normalização dos serviços públicos, a reconstrução
de vias públicas, escolas, postos de saúde e moradias, comprometidos pelas
enchentes.
Existe um plano de Recuperação
Socioambiental da Serra do Mar, onde as moradias em risco estão sendo
remanejadas para a reurbanização destes locais, por isso, ainda não se pensou
em uma verba para a reconstrução dos bairros afetados.
O coordenador da defesa civil ainda
explica que a prioridade agora é atender os afetados pela enchente. “Os
conjuntos habitacionais Imigrantes I e II, Bolsão 9 serão habitados pelos
moradores atingidos pela tragédia em fevereiro”.
A prefeita de Cubatão,
Márcia Rosa (PT), disse que foi realizado um cadastramento com as vítimas em
parceria com o governo do Estado para o atendimento aos desabrigados.
“Vamos incluir as mil
famílias do bairro Água Fria, que foi um dos mais afetados, em cadastros de
moradias para conjuntos habitacionais, pois em Cubatão não temos moradias
suficientes para atender a toda à demanda. Fizemos uma parceria com o CDHU, para
resolver a situação da melhor maneira possível”, explicou.
A Defesa Civil esclarece ainda que está
realizando vistorias nas casas e que trezentos laudos já foram elaborados, que
culminou na criação do Auxílio de Moradia Emergencial, onde os moradores de
Pilões e Água Fria através de um convênio com o Estado e a prefeitura vão
receber o auxílio aluguel.
Algumas famílias invadiram
apartamentos construídos em conjuntos habitacionais no Bolsão 9, por não terem
pra onde ir, mas tiveram que sair dos imóveis já que ocupavam as habitações de
maneira ilegal.
“As
famílias não podiam permanecer no local, porque os apartamentos são destinados para
outras de outros bairros que já estavam cadastradas nos programas, enquanto isso
as pessoas podiam continuar nos abrigos que a prefeitura destinou com toda a
assistência a ser dada”, comentou o diretor de Segurança Pública, Genivaldo
Brandão.
Oitenta
das seiscentas famílias que invadiram os imóveis do CDHU acamparam na porta da
prefeitura. Elas fizeram um protesto reivindicando abrigos, já que os criados
pelo governo municipal estavam lotados.
Muitos
moradores de Cubatão atingidos pela enchente vieram do nordeste, e mesmo após a
tragédia, ainda preferem ficar na cidade.
“Perdi
a casa, mas prefiro ficar aqui, não tenho vontade de voltar, meus objetivos
estão aqui e pretendo realizá-los, construir minha casa novamente”, fala a soldadora,
Cristiana Pereira dos Santos.
“Fui
pra Pilões construir um barraco porque não tinha outro lugar para ir, mas ainda
prefiro ficar a voltar”, conta a dona de casa, Margarida da Silva Santana.
“Apesar de tudo ainda estou
melhor aqui, porque mesmo estando desempregado, a minha mulher está trabalhando
e tem estudo pro meu filho”, explica José Mário Ferreira.
Alguns moradores afetados
pela enchente não conseguiram realizar o cadastro e também não aceitavam o que
a prefeitura oferecia. “Falaram que era
um cadastro para receber roupas e alimentos, ninguém explicou que era sobre o
CDHU”, esclarece o soldador Nilson Andrade.
No final de março, mais de
um mês depois, as famílias começaram a receber um auxílio aluguel, no valor de
R$1.200, com três meses de adiantamento. Depois receberiam R$400 mensais até
conseguirem ser sorteados nos programas de conjuntos habitacionais da
companhia.
O processo de vistoria das
casas ainda continua e segundo informações da Defesa Civil de Cubatão existem
82 famílias que não foram afetadas pela enchente, mas que conseguiram receber o
auxílio aluguel.
“Existem famílias suspeitas
que acabaram recebendo o benefício de maneira irregular. Chegaram no local e
disseram que tinham uma casa lá”, explica o coordenador da Defesa Civil, José
Antônio dos Santos.
Além disso, a Companhia de
Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) vai oferecer uma ajuda de custo
entre R$75mil e R$100mil para ajudar as famílias na compra da casa própria,
desde que possuam comprovação de renda.
Foi feita uma parceria para
auxiliar estas vítimas, a CDHU assumiu a responsabilidade por Água Fria e a
Defesa Civil assumiu Pilões, e se não houvesse essa parceria, não seria
possível realizar o atendimento feito aos moradores.
Segundo o coordenador do
Programa da Serra do Mar, do governo estadual, Fernando Chucre, houve um
cadastro dos moradores, para confirmação de onde residiam.
“Foi previsto um trabalho
social que confirmasse as informações e realizasse um atendimento para as
famílias, de maneira que fossem direcionadas aos programas habitacionais”.
O Programa Serra do Mar foi
criado pelo governo do Estado após uma resolução do Ministério Público para
retirar os moradores das áreas de risco e encaminhá-los para novas moradias.
A reportagem apurou que a
área de Pilões é uma área privada da Companhia de Saneamento Básico do Estado
de São Paulo (Sabesp) e que não é considerado um bairro e nem consta no mapa do
município de Cubatão, mas foi um “bairro” criado pelos moradores após
construírem suas moradias no local.
Após um acordo com a
prefeitura, a Sabesp está fiscalizando as casas no local e vendo juntamente com
outros órgãos municipais como e quando serão demolidas e as pessoas
transferidas.
Quase um mês depois outra
chuva preocupou os moradores da cidade, que mal haviam se recuperado da
enchente anterior.
Moradores retiravam o que
podiam das casas, para não perder mais com a nova enchente. Segundo a
prefeitura, apenas duzentas famílias foram afetadas.
“Estamos realizando um
atendimento aos moradores de Cubatão, onde setecentas famílias já estão recebendo
o auxílio moradia e duas mil, dos bairros de Pilões e Água Fria serão removidas
das áreas de risco e transferidas para conjuntos habitacionais novos em breve. Além
disso, os terrenos estão em fase de aquisição, para auxiliar as vítimas da enchente”,
esclarece o secretário estadual da Habitação, Silvio Torres.
“Foi realizada uma parceria
com o governo do Estado no processo de aquisição de terrenos, além do acordo com
o CDHU que irá construir duas mil novas moradias na cidade”, comenta a prefeita
Márcia Rosa.
Existem em Cubatão sete
postos telemétricos onde dados sobre a quantidade de chuvas é lançada em uma
planilha e a Defesa Civil realiza um acompanhamento destes dados para ações
preventivas que auxiliam a população sobre situações de risco. Cinco novos
postos telemétricos serão instalados em pontos a serem ainda definidos.
Para evitar novas enchentes e tragédias
em Cubatão, a prefeitura pretende rever seus sistemas de macro e micro drenagem,
pleitear o desassoreamento dos rios junto aos Ministérios, no governo federal e
secretarias estaduais competentes, além de rever o Plano Municipal de Defesa
Civil.
O sistema de macro e micro drenagem tem
como objetivo o desenvolvimento urbano sustentável, necessário à implantação de
padrões de controle do uso do solo, ocupação de áreas de risco e sistemas eficientes
de drenagem, que reduzam os riscos de inundações e danos causados pelas
enchentes.
Um projeto está sendo proposto pelo
Presidente da Câmara Municipal, Wagner Moura dos Santos (PT), sobre o
desassoreamento dos rios e canais da cidade.
“Ficamos preocupados com o assoreamento
dos rios de Cubatão. Com as chuvas de fevereiro, dois bairros foram destruídos,
Água Fria e Pilões; e a cidade ficou debaixo d´água. Queremos saber se há algum
projeto em vista para solucionar este problema”.
O coordenador da Defesa Civil conta que
realizou um estudo sobre o problema.
“Já há algum tempo, fiz um laudo sobre
o desassoreamento dos rios, existe muito material pesado, tóxico no solo,
próximo aos rios, então fica complicado fazer algum trabalho a respeito. O
desassoreamento dos rios foi feito há tempos, em 1988, precisa ser refeito
constantemente”.
O município de Cubatão agora precisa
realizar uma prestação de contas sobre a verba federal destinada a cidade após
a tragédia.
A Defesa Civil está fazendo o relatório
explicando cada detalhe sobre todo dinheiro utilizado, porque se não explicado,
a cidade pode cometer um crime federal deixando de receber verbas para as obras
de infraestrutura do município.
Após a conclusão do relatório, ele será
homologado pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) e encaminhado
para Brasília.
O parlamentar Ademário da Silva (PSDB)
afirmou que a cidade passa por uma forte intervenção do Estado, principalmente
na área de Habitação. “É importante à sincronização das ações neste momento”.
Um projeto de macrodrenagem foi
inscrito no Ministério das Cidades, pela prefeita Márcia Rosa, que engloba a
restruturação do sistema de drenagem das ruas da cidade e a instalação de
bombas elétricas para escoamento de água.
O projeto foi orçado em R$40 milhões,
beneficiarão 45 mil pessoas e aguarda liberação de verbas federais vindas do
Programa de Aceleração do Crescimento (PAC-3) para ser executado.
O governador do estado, Geraldo Alckmin (PSDB) esteve em Santos no último dia 13 de junho e anunciou a entrega de novas unidades habitacionais para o município de Cubatão. “Serão entregues 800 novos apartamentos, onde os terrenos foram comprados pela prefeitura, no valor de R$21 milhões e quinhentos mil, dando prioridade a quem precisa, que foi atingido pelas enchentes”. Na região serão entregues 3400 novas moradias aos moradores de Santos, Cubatão e São Vicente.
Em contrapartida a Cubatão que ainda
sofre com as enchentes, vamos mostrar a situação de outra cidade que já
combateu o problema.
Um programa de combate às enchentes foi
realizado em Ribeirão Preto, município a 314 km de São Paulo, já que as cheias
castigavam há um século sua população.
As obras consistiam em canalizar o rio
ribeirão-preto, ampliando em três vezes sua vazão, com o aprofundamento e
alargamento da calha desde a rotatória Amin Calil até a Avenida Álvaro de Lima,
numa extensão de dois quilômetros com oito pontes, e no último trecho com
oitocentos metros.
As obras custaram R$117 milhões e
tiveram recursos municipais, estaduais, além de federais, (vindos do Programa
de Aceleração do Crescimento – PAC), modernizando a cidade, com a construção de
muretas de proteção próximas ao rio para evitar acidentes além de melhorar a
iluminação pública no local.
“A vida da população mudou após as
obras antienchentes, especialmente na região central e na Vila Virgínia, mais
afetadas. O cenário da cidade é outro, graças ao conjunto de melhorias de
grande engenharia, que deixou para trás um panorama que trouxe muito sofrimento
para os ribeirão-pretanos”, garante o secretário de Obras, Abranche Fuad Abdo.
Com a intervenção, não houve inundação,
e o registro de chuva de 54,1 mm entre os dias 29 de dezembro de 2011 e 1° de
janeiro de 2012, mesmo sendo 32% maior que no mesmo período do ano anterior,
comprova que a obra atingiu resultados práticos.
A prefeita de Ribeirão Preto, Dárcy
Vera (PSD) disse que as obras foram planejadas para resolver um problema
presente na cidade há gerações. “É a maior obra da história de Ribeirão Preto e
solucionou um problema de um século, que afligia muitos moradores. Foi um
projeto que mudou a cara do município e que beneficiam comerciantes e moradores
das regiões antes afetadas”.
A prefeita Márcia Rosa (PT) e o
vice-prefeito Donizete Tavares do Nascimento (PSC) foram cassados em primeira
instância por abuso de poder político e autoridade durante a última campanha
eleitoral (2012).
Mas como foi em primeira instância,
ambos continuam no cargo e podem recorrer da decisão judicial em São Paulo e em
Brasília, no Supremo Tribunal Federal (STF). O tema da cassação não tem a ver
com esta reportagem.


Segundo uma pesquisa da Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil é o 6° país no mundo que mais sofre com catástrofes climáticas.
O desastre natural mais comum
é a seca, principalmente no Nordeste, mas as inundações são mais devastadoras,
porque vêm juntamente com deslizamentos de terra, vendavais e enxurradas. Uma
em cada três tragédias no Brasil se encontram nesse nível. Foram mais de 10 mil
registros feitos entre 1990 e 2010.
O
geólogo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), Marcelo Gromani, comentou
sobre a tragédia na Baixada Santista. “A Serra do Mar é suscetível a esse tipo
de processo, com deslizamentos, fluxos de lama, mas esse em particular teve uma
dimensão muito grande”.
Fotos: Defesa Civil de Cubatão
Fotos: Defesa Civil de Cubatão









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